O LADO B DE CLARICE LISPECTOR : O QUE AS FEMINISTAS DA INTERNET DIRIAM ?


O lado B de Clarice Lispector: o que as feministas de Internet diriam?

No livro Só para mulheres - Conselhos, receitas e segredos, Aparecida Maria Nunes reúne 290 textos machistas e obsoletos publicados por Clarice Lispector em diversos jornais entre as décadas de 50 e 60. Leia alguns trechos

Certa feita, algum sábio disse que jamais deveríamos visitar a cozinha dos nossos restaurantes prediletos porque certamente ficaríamos com nojo e deixaríamos de comer neles. Costumo dizer que a regra vale para certas biografias. Até hoje, por exemplo, não sei se me sinto contente ou arrependida por ter bisbilhotado a vida de Sartre e Simone de Beauvoir, dois escritores que me despertam paixão. Descobri em algumas leituras um homem mais egocêntrico do que imaginava e uma mulher mais subserviente do que eu poderia sonhar - o que, claro, não apaga em nada o brilhantismo dos dois.
Pois foi exatamente essa a sensação que tive, a de entrar numa cozinha imunda e desorganizada, ao me deparar com o livro Só para mulheres – Conselhos, receitas e segredos, de Clarice Lispector (Editora Rocco, 2008). A vertigem que senti aos vinte anos ao ler Água Viva, da mesma autora, em nada se pareceu com o enjoo que seus conselhos e receitas me causaram.
Como digerir o fato de que a mesma mulher que escreveu linhas como “Para cada um de nós e – em algum momento perdido na vida – anuncia-se uma missão a cumprir? Recuso-me porém a qualquer missão. Não cumpro nada: apenas vivo” tenha escrito, também:
“Ser uma boa esposa não é apenas, como julgam muitas mulheres, ser honesta, econômica e trabalhadora. É muito comum encontrarmos esposas traídas e abandonadas queixarem-se: ‘Eu sempre fui para ele ótima esposa!’. Não devem ter sido. Boa esposa é aquela torna a vida do lar agradável para o marido, fazendo de sua companhia um refúgio para sua vida de lutas. Se ele chega exausto do trabalho, a boa esposa não lhe azucrina os ouvidos com queixas, fuxicos ou insistentes convites para cinema, festas ou reuniões de que ele não gosta. Sua casa está sempre limpa e em ordem, mas não exageradamente ao ponto de ele não poder fumar um cigarro em paz, não poder esticar-se para ler o seu jornal sossegado”.
Eu poderia me esforçar para digerir os conselhos de Clarice Lispector, como este acima, tentando contextualizá-los em sua época: suas dicas femininas foram escritas entre os anos 50 e 60, em jornais como Comício, Diário da Noite e Correio da Manhã; ou, ainda, acreditando que foram psicografados por almas medievais que assinavam com os nomes de Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares (pseudônimos usados pela autora nas publicações).
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Não, a Clarice de A Paixão Segundo G.H, jamais diria ou escreveria:
“Talvez você, para não ter o trabalho de dietas e preocupações, tenha resolvido que não é gorda - é gordinha. Desculpe-me, mas é mesmo? Quantos passos ‘além de gordinha’ você já deu? Cada pessoa tem seu próprio tipo. Mas ser gorda não é tipo; é talvez o tipo engordado. E isso não ajuda a ser sedutora (...) Está bem, suponhamos que você é apenas gordinha. O que não tem mal. No entanto, há o perigo de você ser ‘ainda gordinha’ - o que significa um futuro progressivo rumo ao ‘gorda’. Cuidado, pois, enquanto ainda é muito simples tomar cuidado. ‘Gordota’ já não é tão bom como ‘gordinha’. E ‘gorda’ já piora o engraçadinho de ‘gordota’”.
Foi Helen Palmer, ou, Tereza Quadros, Clarice, jamais! Gordota? Não, Clarice, não. 
Há no livro de 157 páginas, organizado por Aparecida Maria Nunes, 290 textos recuperados dos jornais, verdadeiras pérolas como estas acima - além de dicas para educar bem os filhos, usar de maneira natural a maquiagem, saber se portar numa festa, incentivo à leitura e até sobre a importância da meia-calça.
“É preciso ganhar a vida”, pensei enquanto avançava no manual da mulher bacana de Lispector. “Os textos devem ter rendido um bom dinheirinho a ela”. Mas um bom dinheirinho vale esse desserviço?
Se reinventar artisticamente é uma coisa, ser camaleão a la David Bowie e Fernando Pessoa com seus mil heterônimos, é sensacional. Mas ter a faca e o queijo nas mãos (leia: a imprensa da época para se comunicar com centenas de mulheres) e usá-la para reafirmar estereótipos me causou um enjoo que Sonrisal algum cura.
Terminada a leitura de Só para mulheres - Conselhos, receitas e segredos, vislumbrando a chegada do tal dia Internacional das Mulheres e recordando o bafafá que meu texto "Prefiro ser fêmea a feminista de Internet" causou, me perguntei: o que será que as mocinhas que se dizem feministas (e que vivem compartilhando, apaixonadamente, frases de Clarice Lispector no Facebook para mostrar que são inteligentes), diriam se soubessem que dentro de Clarice vivia uma submissa e obsoleta Tereza Quadros?
E mais, madame Lispector gostaria de uma coletânea (que visualmente é luxuosíssima) como essa? Prefiro acreditar que ela está puxando o pé de Aparecida Maria Nunes todas as noites...
Confira abaixo outros trechos do livro. 
(imagens google)
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Eis alguns fragmentos de Só para mulheres - Conselhos, receitas e segredos:
“Você é ‘moralmente’ tão antiquada a ponto de considerar vaidade feminina uma frivolidade? Você já devia saber que as mulheres querem se sentir bonitas para se sentirem amadas. E querer sentir-se amada não é uma frivolidade. Se você pensa que ‘nasceu’ assim, e não tem jeito, fique certa de que está é desistindo de alguma coisa muito importante: de sua própria capacidade de atrair”
“Uma casa de sua propriedade, onde se pode fazer melhoramentos e modificar à vontade, é o sonho de toda mulher. Com raras exceções, uma esposa preferirá uma casa própria a um automóvel. Um lar - sendo a sua casa – aumenta a sensação de segurança de uma esposa e dá ao homem uma satisfação muito parecida com a do dever cumprido perante sua família. Saber que os seus terão um teto, dado por ele à custa do suor e sofrimento, contribui para cimentar o caráter já formado de um homem”. 
“Boa aparência é uma das coisas importantes para a mulher que trabalha. Por isso, não deixe faltar em sua bolsa um estojo de pó compacto para retocar a maquiagem (...) Sua presença no escritório deve ser motivo de orgulho para o seu chefe”. 
“Uma mulher no meio de uma porção de homens até se diverte, porque eles lhe darão uma atenção toda especial e ela adora isso. Já um homem, quando se encontra no meio de uma porção de mulheres, a única coisa que quer é cair fora (...) Elas não falam de outra coisa a não ser de si mesmas, de suas roupas e de outras mulheres (...) Para um homem é difícil entrosar-se nessa linguagem, pois todas falam ao mesmo tempo”.
“A vida da dona de casa é mais cômoda do que a da moça que trabalha? Muita gente pensa que a maioria das mulheres prefere trabalhar fora a viver em casa, cuidando da comida, roupa e arrumação do lar. No entanto, estatísticas confirmam que a grande maioria das mulheres que trabalha fora preferiria estar em casa, mesmo tendo que tomar todo o encargo de uma casa. Não é nada agradável para uma mulher levantar todo o dia à mesma hora, se preparar correndo, tomar café e sair atrás de um ônibus lotado, para começar a trabalhar num escritório ou repartição até tarde, naquela rotina desagradável de todos os dias. O trabalho de casa, apesar de não ter horário e nunca ter fim, é mais agradável, pois poderá ser suspenso a qualquer momento, a critério da dona de casa e ela mesma pode organizar seu programa, escolhendo as horas para realizar as tarefas que necessitar. É verdade que o apronto dos alimentos, a lavagem da roupa e limpeza da casa e cuidado com as crianças não são das coisas mais agradáveis, são um trabalho penoso, mas nele a mulher põe amor e interesse, pois são coisas suas e ela é diretamente interessada, ao contrário do que ocorre com o trabalho fora do lar”. 

Por Mônica Montone

Fonte:
© obvious:http://lounge.obviousmag.org/monica_montone/2015/03/o-lado-b-de-clarice-lispector-o-que-as-feministas-de-internet-diriam.html#ixzz3TaqrzDyN 

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